
2 momentos em Beco Sem Saída (Wyler, 1937)
A moça boa sobe a escada, o moço bom a acompanha despistadamente, ela sente o cheiro e volta para trás;
O moço mau a intima calorosamente, a moça má retrocede para luz, ele sente o cheiro e volta para trás;
Um ensinamento. Todos são iguais.
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Quadrilha Maldita (André De Toth, 1959)

– O caminho termina nesta cidade.
– A única alternativa é voltar.
– O caminho de volta está fechado.
Porque o coração está ferido. De todo mundo. Ninguém esboça sorriso. O ódio não nasceu ali, proliferou-se. Daquele tipo que a chegada de novos elementos numa sociedade desestabiliza todo o sistema. Primeiro, o desbravador que vê a perda do seu espaço para o que chegou depois. E então, a união desses dois que veem a perda do seu espaço para intrusos. Na verdade uma quadrilha é engolida por outra. E é assim que funciona, e através do que a morte começa rondar aquelas terras remotas filmadas sob o olhar do húngaro mais querido das Américas. Tempo dos homens frios, das mulheres desprotegidas, da arrogância: Day of the Outlaw.
A tensão é imperiosa e não apenas acometida de angústia. O teor é sexual. No povoado, a mulher é de um mas se sente de todos. Desencadeia a troca de presas. Alguns as entendem, outros as julgam, e outros ficam omissos. Cada reação, de cada personagem, é tão pulsante. Dá pra sentir de perto a respiração ofegante e ao que aspiram. Ninguém quer a paz, quer justiça. Mas os juízos de valor são distintos. Filmes que mais desmistificam a moral do homem e catalisam gestos são os feitos com armas. Ação, não sei. Drama, talvez. Western, com certeza.
Robert Ryan é monstro e o que buscam não é uma saída. Uma forma de morrer. Sobrevivência ali é jogada a sorte. Não equivale mais a simples interesses. André De Toth narra sobre mortais. A câmera gira e todo mundo entra na mira. A garrafa cai, e todo mundo se distrai. Há de haver uma maneira de se escapulir do vale das sombras. Vale que os manipula. E torna os que se acham muito homens, menos homens. A luta de alguma forma serve para pairar os pensamentos. O macho-alfa aprende com suas falhas, volta atrás. A cidade é dele novamente. Mas agora não só.
O anti-herói. Hmm, opera-prima sem precedentes.
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2011
Falta de respeito, ok, mas sou caradepau. Dos comercialmente lançados, cá:
01. Caminho Para o Nada (Monte Hellman, 2010) *****
02. Um Lugar Qualquer (Sofia Coppola, 2010) *****
03. Pearl Jam Twenty (Cameron Crowe, 2011) *****
04. Biutiful (Alejandro González Iñárritu, 2010) ****
05. Planeta dos Macacos: A Origem (Rupert Wyatt, 2011) ****
06. Super 8 (J. J. Abrams, 2011) ****
07. Passe Livre (Irmãos Farrelly, 2011) ****
08. Inverno da Alma (Debra Granik, 2010) ****
09. Deixe-me Entrar (Matt Reeves, 2010) ****
10. Além da Vida (Clint Eastwood, 2010) ****
11. Margin Call – O Dia Antes do Fim (J. C. Chandor, 2011) ****
12. Aterrorizada (John Carpenter, 2010) ****
13. Incontrolável (Tony Scott, 2010) ****
14. Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, 2010) ****
15. Namorados Para Sempre (Derek Cianfrance, 2010) ****
16. À Queima Roupa (Fred Cavayé, 2010) ***½
17. O Primeiro Amor (Rob Reiner, 2010) ***½
18. Rango (Gore Verbinski, 2011) ***½
19. Sexo Sem Compromisso (Ivan Reitman, 2011) ***½
20. Missão Madrinha de Casamento (Paul Feig, 2011) ***½
21. O Garoto da Bicicleta (Irmãos Dardenne, 2011) ***½
22. Paul – Contatos Imediatos com essa Figura (Greg Mottola, 2011) ***½
23. Bravura Indômita (Irmãos Coen, 2010) ***½
24. Reencontrando a Felicidade (John Cameron Mitchell, 2010) ***½
25. Singularidades de Uma Rapariga Loura (Manoel de Oliveira, 2009) ***½
26. Um Conto Chinês (Sebastián Borensztein, 2011) ***½
27. Melancolia (Lars von Trier, 2011) ***½
28. O Vencedor (David O. Russel, 2010) ***½
29. Missão Impossível: Protocolo Fantasma (Brad Bird, 2011) ***½
30. Turnê (Mathieu Almaric, 2010) ***½
31. Amor a Toda Prova (Glenn Ficarra/ John Requa, 2011) ***½
32. Os Três Mosqueteiros (Paul W. S. Anderson, 2011) ***½
33. A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Werner Herzog, 2010) ***½
34. Amor e Outras Drogas (Edward Zwick, 2010) ***
35. Se Beber, Não Case! – Parte 2 (Todd Phillips, 2011) ***
36. O Mafioso (Jonathan Hensleigh, 2011) ***
37. O Besouro Verde (Michel Gondry, 2011) ***
38. Fúria Sobre Rodas (Patrick Lussier, 2011) ***
39. A Pele que Habito (Pedro Almodóvar, 2011) ***
40. Meia-Noite em Paris (Woody Allen, 2011) ***
41. A Árvore do Amor (Yimou Zhang, 2010) ***
42. Esposa de Mentirinha (Dennis Dugan, 2011) ***
43. Os Pinguins do Papai (Mark Waters, 2011) ***
44. Jogo de Poder (Doug Liman, 2010) ***
45. Desconhecido (Jaume Collet-Serra, 2011) ***
46. Assassino a Preço Fixo (Simon West, 2011) ***
47. Quero Matar Meu Chefe (Seth Gordon, 2011) ***
48. Pânico 4 (Wes Craven, 2011) ***
49. A Mentira (Will Gluck, 2010) ***
50. Tudo Pelo Poder (George Clooney, 2011) ***
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8 minutos pra falar de amor
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“Drum” is the explosion!
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rip – KEN RUSSELL (1927 | 2011)
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They Drive By Night, do pai da maldade
Pode até parecer, mas aquele final não tem nada de feliz. Na verdade é muito do cruel. Ou aquela piscadinha é a maior metáfora do cinema ou Walsh era mesmo muito filho da puta. A doentia ambição ali não mais estaria presente apenas no personagem de George Raft, pois então teria se alastrado a todos que participaram daqueles acontecimentos que vieram de momento em momento, desde o minuto inicial, a tela. Situações de desespero, que testavam a humanidade em cada um. E são várias as provações pelas quais eles têm que atravessar, mas eis que Walsh lança seu olhar e a esperança depositada no homem é: nula. Este era o pai da maldade.

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The Sergeant (John Flynn, 1968)
Pois bem, não precisaria caminhar muito, já no prólogo percebemos que John Flynn chegara para sua primeira direção com gabarito, de quem foi aprendiz de um grande esteta daqueles tempos, Robert Wise, que também produz The Sergeant. Começa num preto-e-branco que “se dá” muito significado, como apenas um dentre tantos episódios traumáticos da guerra que nosso personagem veio a enfrentar. E enfrentou mesmo. O que ele não conseguiria enfrentar: o amor, à sua maneira, não retribuído.
Rod Steiger, que dispensa elogios, tinha vindo de Oscar e conseguiu algo maior que em seu In the Heat of the Night. Ele chora, senhores, Rod Steiger chora. E faz chorar. Conhecemos então o Sargento, a imagem em que desce da estação, dá uma parada na porta do trem e olha para o nada equipara-se naquele instante a toda sua vida, um grande coisa nenhuma, até ali. Seria a câmera de John Flynn mais uma vez insinuando.
Até ali, porque vê na figura de um dos seus comandados no pós-guerra, jovem e bonito soldado, sua ilha. Só que esse outro gosta de uma mulher, normal, e não abre mão. O triângulo se mistura, e cada vez que o diretor nos condiciona ao olhar do Sargento, a câmera se distância da figura da moça: ela quer distância daquele homem, e aquele homem quer distância dela para com seu afeto. O Sargento briga pelo que acredita. Encara também todo seu pelotão, imaginem, novamente na posição que nunca desejou estar. Seria a câmera de John Flynn mais uma vez insinuando.
Um filme corrosivo. É tão intenso que quando pensa que está próximo, se acomete de desespero.
Ele entrega as armas.
Pois pessoal, é aí que se encontra toda a catarse do que aprendemos até então de John Flynn, um trabalho com teor homossexual filmado por um dos mais culhudos dentre os classisistas. Percebe-se aqui exasperantemente a poesia que versa sobre a solidão, que viria a abordar depois tanto em Rolling Thunder, como em Lock Up, os de execução mais “formal”. Que prova que o conceito de John Flynn esteve sempre intrinsecamente ligado, a raíz – romântica – da sua maneira de filmar.
Tentar entender o que John Flynn queria dizer com cada plano, com cada quadro, com cada movimento, quando muito, com cada texto. E nesse caso, com Rod Steiger. The Sergeant é a maior história de amor não correspondido do cinema. Seu filme mais redondo, e nunca entenderei o motivo de, até então, um monumento desses não figurar em todas as listas de melhores do cinema.
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5 lições de cinema
John Flynn - Our for Justice, 1991
Robert Siodmak – The Killers, 1946
Enzo G. Castellari – The Big Racket, 1976
Robert Wise – The Set-Up, 1949
Peter Yates – The Friends of Eddie Coyle, 1974
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perdi na sinuca, mas ok
Post com o único intuito de mandar um “valeu!” ao gordo do Math pela paciência com esse daqui, ao vareta do Allan nosso guia espirutual, a minha alma gêmea Daniel de Oliveira, ao casal lindão Bê Versiani e sua ruiva, ao padrinho Thiago Macedo, ao hereslucas que não conhece John Flynn, ao fofo (!) do [nosso] Kevin, ao Sandro doido, ao professor Bruno Andrade, Matheus Gosling, etc etc, outros que atravessaram meu caminho e que me escapa o nome, e ao Dario Argento (fuckyeah)!
900km de chão, primeira vez no Rio, pessoal genial, ambiente todo genial, Lapa, cerveja, cerveja, cerveja, mar, cerveja, cinema! Bobo, mas tenho que dizer: inesquecível. E que conste isso como uma pequena lembrança, enquanto essa pág durar, desses momentos, da nega que intimou pra fazer sexo no banheiro três vezes às partidas de sinuca perdidas, grande farra… E todo mundo se fudeu, porque vou postar foto do que eu quiser.
Para poucos.
E um pequeno balanço do que vi por lá:
- Drive (Nicolas Winding Refn, 2011) — 6/5
- Pearl Jam Twenty (Cameron Crowe, 2011) — 5/5
- A Floresta (Rafi Pitts, 2010) — 4/5
- Um Método Perigoso (David Cronenberg, 2011) — 3,5/5
- L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância (Bertrand Bonello, 2011)– 3,5/5
- A Pele Que Habito (Pedro Almodóvar, 2011) — 3/5
- Post Mortem (Pablo Larraín, 2010) — 2,5/5
- We Need To Talk About Kevin (Lynne Ramsay, 2011) — 2,5/5
+++
- Phenomena (Dario Argento, 1985) — 5/5
- Trauma (Dario Argento, 1993) — 3,5/5
Ademais, beijos, e quem sabe numa próxima!
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o diretor Dennis Hopper
A cabeça do homem funcionava e bem demais. The Last Movie, não à toa venerado pelo mestre Monte Hellman…
The Last Movie *****
Anos de Rebeldia *****
Sem Destino ****
As Cores da Violência ***½

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o domínio estilístico e narrativo de Walter Hill
Creio eu que Walter Hill era (ok, mas ele está vivaço) um perfeccionista, o zelo com que tratava cada frame é impressionante. Lutador de Rua, Os Selvagens da Noite, 48 Horas, todos lindos demais em conceito e no apuro técnico. The Warriors consegue ser o mais tenso e deveras reflexivo, mas sua obra máxima, e que tem o melhor controle de tempo e das situações, é este daqui:

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Garotas Duras Na Queda (Robert Aldrich, 1981)

Um Aldrich capaz de subverter seus próprios valores, em seu último filme dar leitura ao homem como uma criatura resguardada em absoluta ternura, e que ainda surge para realizar nossos sonhos de cinéfilos ao colocar boazudas pra lutar e se esfregar no ringue, mas o ringue principal que busca retratar é o da vida, que jamais aparece como algo difícil de ser enfrentado, mas como fácil de ser lidado. Sensação muito semelhante a que senti com o Cockfighter de Monte Hellman, uma riqueza de espírito, que jorra da tela e só te faz querer amar mais e mais sua condição. É o que é, uma declaração de amor à arte, que por sua vez imita a existência, com as palavras do diretor, olhos de Peter Falk e curvas [acentuadas] de Vicki Frederick e Laurene Landon.
Temos um road movie por substância, tênue e suscetível a abreviar qualquer pretenso questionamento, o que é seu grande trunfo, assimilar a maneira de encarar a vida com a que se deve encarar também o esporte, não importa o quão longe possa chegar, mas se chegará a algum lugar. O suficiente. Os personagens nos encaram intimamente, nos colocam para admirá-los por sua castidade, não se batalha contra o destino, o absorve, e então experimenta-se a felicidade. E com esse conceito imaculado é que me senti guiado a um final-espetáculo que muito mais do que fazer qualquer analogia ao “vencer na vida”, chega simplesmente para causar espasmos numa celebração do instinto humano.
Não hesito em colocar entre meus três preferidos do mestre.
5/5
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django meets sartana
Primeiro contato com Demofilo Fidani. Adorei, de verdade, grande artesão. Vai até além da mitologia em torno dele…
Acho que dá pra esboçar um top spaghetti, excetuando Leone [e torçamos para que Tarantino aleije o gato]:
01. Keoma (Enzo G. Castellari, 1976)
02. Quando os Brutos Se Defrontam (Sergio Sollima, 1967)
03. A Volta do Pistoleiro (Monte Hellman, 1978)
04. O Vingador Silencioso (Sergio Corbucci, 1968)
05. Uma Bala Para o General (Damiano Damiani, 1966)
06. Vingança Cega (Sergio Martino, 1977)
07. Preso Na Escuridão (Ferdinando Baldi, 1971)
08. Django Desafia Sartana (Demofilo Fidani, 1970)
09. O Dia da Ira (Tonino Valerii, 1967)
10. Django (Sergio Corbucci, 1966)

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Uma Vida Marcada (Robert Siodmak, 1948)

Robert Siodmak. Entre os três maiores diretores americanos do noir. Mas tu provavelmente pouco ou nada ouviu falar dele. The Killers (Os Assassinos) destruiu tudo que havia se criado narrativamente dentro do gênero e a história parecia encontrar soluções nas subcamadas mais obscuras da trama, explorar seus campos mais complexos. Criss Cross (Baixeza) mostrou uma perícia impressionante com a estética, quadros, com uma das cenas mais memoráveis que é aquela da cortina de fumaça, além de terminar com um tom Shakespeariano que acabaria por consolidar como noir obrigatório. Phantom Lady (A Dama Fantasma), feito uns anos antes desses dois, apontaria para alguma primazia técnica, mas muito mais aliada à mera investigação policial do que se aprofundar no conceito de cada personagem.
Uma Vida Marcada está entre um, e outro, e etc. Pode-se dizer que potencializa tudo que há de bom em seu cinema. A câmera cautelosamente acompanha os passos, direita e esquerda, coloca pessoas entre crucifixos e imagens santas, há cuidado com cada plano a que se constrói, as sombras mais perceptíveis no começo, e escuridão que aflige mais perto do fim, como se tudo estivesse por cair no abismo. Seu mise en scène mais genial. E filme que mais uma vez narrativamente abre espaço com uma britadeira para desenvolver-se, tem-se o começo de onde deveria ser o seu meio. Faz apelo aos valores da família, coloca o herói no chão e pisa em sua cabeça, o juízo do mais velho e do mais jovem, e o que me veio a mente foi a mesma maturidade que James Gray trataria dessas relações, porém “só” cinco décadas depois. Desfecho fuderoso, os olhos que se encheram d’água. Preferia nem dizer, mas lá vai: Cry of he City é um dos que mais merecem ser redescobertos.
5/5
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Aleksandr Nevskiy – Eisenstein
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O Homem Leopardo (Jacques Tourneur, 1943)

Considero Cat People de Tourneur o maior filme de terror feito. Produzido um ano depois, O Homem Leopardo é sim um filhote mais novo desse outro, que não só vem para comprovar a imponência estética de seu mestre como também o coeficiente psicológico de ludicidade em suas histórias sobre o sobrenatural. O tesão pelos planos, sombras e espaços é imediato, e me questiono ainda quem foi mais que teve coragem na década de 40 de colocar um animal exótico para passear, em meio a crucifixo enorme no canto da frame, depois cartomantes, uma garota presa em um cemitério na noite de lua cheia, seitas do capeta e um derramamento de sangue por toda uma região onde o desespero passa a tomar conta; ou qualquer coisa nessa proporção num só contexto, e fazer funcionar.
Assim fica fácil perceber que o cinema se divide em “antes de Tourneur” e “depois de Tourneur”, no que se refere à constituição de todo suspense. O animal é camuflagem para que o diretor possa dançar com nossas mentes, a grande arte do homem é colocar seu público inerte ao universo criado, agora são os olhos e não o raciocínio que te guiam, passando a conviver com aquele medo e sem nunca revelar nada que justificasse as situações, tudo está aberto, sua cabeça subsequentemente também. E mais além do que consegue fazer com a escuridão aqui, os sons ganham em importância de uma maneira [acredito] que inédita em sua filmografia (quando uma dançarina flamenca começava a cintilar com um barulho que sai dos seus dedos, a espinha nem gelava).
Não fosse já capaz de criar algumas das obras-primas do horror, viriam noirs, westerns e até filme de piratas. Impressionante a versatilidade, mas com um traço comum em todo canto que se refugiava (alguns são filmes “de estúdio”), o apego aos casos que buscam extrair do ser humano reações de grande risco, que colocam suas vidas em insegurança, e quando no preto-e-branco transcendia a arte, já que ninguém (repito: ninguém) até hoje teve perícia no assunto como Tourneur.
5/5
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Meu Nome é Coogan (Don Siegel, 1968)

Muito conhecido, mas também o filme de Don Siegel que talvez mais mereça uma reavaliação. É onde a safadeza do diretor mais se escancara diante dos nossos olhos, não só na relação dos personagens, na integração crepuscular homem-mulher; tratando-se sobretudo de sua condução/desenvolvimento que mais bem dialoga com o espectador, todo o cinema do homem cristalizado em hora e meia de entretenimento, sem se aprofundar demais nas situações. Ao invés de nos fazer mergulhar nos coloca ali na superfície boiando enquanto tomamos uma caipirinha. Eu amei tudo aqui.
A começar pelo Clintão, que mais pegador nunca existiu, tudo parece fácil e a vida é bonita demais. Sexy, sim, e as mulheres mais ainda. Quando você percebe que o roteiro é uma simples desculpa num filme, e que ainda assim consegue te fazer sair dali cinco anos mais jovem de tanta felicidade, dá-se tradução ao “cinema”. A câmera é tão leve, as cores tão neutras, tudo se move tão pouco, tudo se arrisca tão pouco. Você não espera que a coisa estoure aqui, porque o sentimento é de que não acabe, seria bacanudo acompanhar apenas Clint pra lá e pra cá encarando todos. Porém ele tem uma missão, a citada “desculpa”, capturar um vagabundo que é tão besta que nem apanhar merecia.
E até a “grande perseguição de final” soa serena, e diferente dessa vez, um racha com duas motos. É como se narrasse a aventura de um policial durante alguns dias, nada que modificasse profundamente sua vida como tanto vemos por aí, nenhuma saga ou tragédia do cidadão comum. Uma semana na vida de alguém interessante. E subestimado obviamente porque não entra na mente de todo mundo querendo causar surpresa, apreensão e o caraleo-a-quatro, uma vez que não se propõe a isso. Brinde à suavização, na maneira de construir. Quando na maneira de destruir o pau quebra como ação genial que é.
4/5
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