Sam Fuller começando a me convencer do que ele é capaz…
Peço permissão ao Kevin, para reproduzir uns screens…
E já que o belíssimo texto do nosso amigo Vlademir sumiu da rede (ía reproduzi-lo para vocês – Vlad, por favor, se estiver lendo isso, mande-o pra mim), indico o do nosso amigo do MP! Djonata Ramos.
Damiano Damiani como um dos grandes nomes do spaghetti western (autor de verdadeiras pérolas como Bala Para o General), era um dos diretores que mais traziam novos conceitos a serem abordados a cada obra que realizava. Dessa vez não de forma tão contundente. Trinity e Seus Companheiros, como um filme de golpe, é muito mais voltado para a criação de situações cômicas do que para o conteúdo etno-racial em si [se é que ele existe mesmo ali]. Isso faz deste belo trabalho de Damiani o que podemos chamar de “entretenimento puro”, uma trama empolgante que coloca em jogo vidas, dinheiro e honra. A câmera acelerada do diretor não perde nenhum detalhe, e ainda deixa o espectador em certos momentos encabulado com alguns truques de cena utilizados (que na verdade só servem para provocar mais algumas várias risadas em quem assiste).
De nada isso seria efetivo (na preparação do humor) sem a presença de alguém como Terrence Hill, possuidor de um carisma genuíno. E ainda mais fazendo “par romântico” com uma loirinha empoeirada, das coisas mais deliciosas que já apareceram no subgênero. Fica fácil entender porque a maioria das mocinhas com mais de 50 anos de hoje, em sua adolescência, tinham Terrence Hill como ator preferido. Klaus Kinski faz uma ponta no início, e claro que é impossível desprezar sua presença ali [já que ele é sempre um enigma], mesmo que frente ao tema seu personagem seja totalmente insignificante. Todos brincam em frente às câmeras, e até Morricone, bem à vontade em seus arranjos, anarquiza com algumas clássicas composições.
O pecado maior de Trinity e Seus Companheiros são as fragilidades apontadas pelo roteiro, mas certamente Damiani queria era arrecadar alguns euros pelo mundo e tornar esse um dos spaghettis mais populares (e aqui no Brasil com certeza é bastante conhecido). O título nacional nada tem a ver com o enredo, na verdade esse filme é uma espécie de continuação de outro western famoso, Meu Nome é Ninguém de Tonino Valerii (e em várias ocasiões são dados sinais para isso). Rematando, argumento sem muita pretensão e a diversão é garantida.
Enquanto assistia a primeira metade do filme, pensei logo: vou ter que postar algo no blog do tipo “ainda não é o que se espera de Michael Mann” ou “vamos parar de superestimar Michael Mann”…
Mas aí veio a segunda parte, e Michael Mann provou que realmente tem poder de execução, finalmente realizara sua obra-prima… E que final arrepiante…
As precauções de Fleischer com o roteiro sempre foram delicadas. O tratamento da história sempre foi uma de suas principais preocupações, e ainda mais dessa vez, se tratando de um tema que seguramente é eterno: a saga dos guerreiros bárbaros Vikings. O filme é histórico, porém não se contenta apenas em narrar os fatos, também dá profundidade aos preceitos de um povo que já não existia mais. É o um ponto forte, contudo o epicentro está na carga dramática que o diretor impõe sobre o roteiro, muito densa, e a beleza dos diálogos acaba por ratificar o rigor narrativo do autor. Já o ponto fraco são algumas situações que poderiam ter sido evitadas, momentos anti-climáticos e às vezes piegas, que não acrescentam muita coisa a trama (especificamente ao romance).
De fato é um filme do qual podemos definir como grandioso. Parte técnica impecável, dentro das limitações da época, é claro. O que mais se destaca é o figurino e a fotografia (movimentos de câmera e “abuso” no uso das cores singulares na filmografia de Fleischer); trabalharam mais de 4000 mil pessoas para que tudo funcionasse da melhor maneira possível. A década de 1950 proporcionou alguns vários épicos ao público, e Fleischer através dos tempos foi um dos cineastas que mais se empolgaram na construção de trabalhos desse gênero. O ideal seria que ele esperasse mais tempo para criar The Vikings, mas com tudo que o tempo possa retirar de valioso da obra, ainda hoje podemos ficar bastante entretidos com o que vemos aqui.
Não se pode deixar de citar alguns lances antológicos que nos são apresentados. Ver Ernest Borgnine fazer o papel de pai de Kirk Douglas certamente é dos momentos mais esquisitos do cinema (e ainda Borgnine tendo menos idade que Kirk). Outra “façanha” foi dar a pior [-melhor] cara de mal da carreira de Kirk Douglas. Enfim, o elenco é uma atração à parte… Meu fascínio por Fleischer está no modo como ele arriscava sem medo do que poderia receber em troca, e na maioria das vezes superava os desafios que eram impostos [por ele mesm0] . Isso o torna um dos grandes da sétima arte.
Levei mamãe para assistir “Pierrot le fou”, obra que definitivamente me mostrou do que o cinema é capaz. Ela é bem cinéfila, e foi a primeira vez que me estranhou:
– Esse é o melhor filme que você já viu?
– Com certeza.
– Filho, você tem certeza de que não está precisando de um psicólogo?
Guillermo Arriaga estréia e segue a mesma fórmula de outros filmes roteirizados por ele e que fizeram sucesso. A mesma construção narrativa, lançando os fatos ao espectador aleatoriamente; um tema incomum, comprovando sua capacidade criativa e a cada ano aprofundando-se em um conteúdo novo, que nos leve a refletir sobre a vida; e uma atmosfera nostálgica, trazendo em anexo conceitos que remetem à intransigência de um pecado, que sempre leva a outro. The Burning Plain mostra que o passado deixa feridas que mais cedo ou mais tarde voltam a sangrar. Com esse rigor argumentativo e notável apuro estético é fácil perceber que se trata de um belíssimo filme, cada passo dado por Arriaga no cinema aponta alguma evolução.
O que faltou foi ambição por parte da direção. Iñarrítú, seu antigo parceiro (dessa união surgiram algumas obras-primas como Amores Perros e 21 Gramas), teria construído uma obra muito mais impactante. Arriaga deveria ter exposto de melhor maneira sua mensagem final ao público, seu ponto de vista, concentrar toda a trama em uma finalidade mais específica e não apenas abrir caminho para as várias leituras que podemos tirar. Acredito que apenas quem conhece seus outros trabalhos (outro filmaço é Três Enterros) saberá qual foi sua intenção com The Burning Plain.
Seu projeto cinematográfico concentra-se num estudo agudo sobre as nuances da vida, sobre o que o bem e o mal representa para cada um, sobre o que o certo e o errado podem vingar. No fundo o que contemplamos é uma clara representação de que o sentimento da culpa é um fator determinante, que serve como base para o futuro que cada um terá. Com uma ressalva: se há o perdão, então há a perda da culpa.
Um gênero que tem tão pouco espaço na blogosfera, merece uma atenção especial por parte do mineirinho apaixonado aqui. E vai um top 25 com as melhores que já existiram, nas melhores vozes, do que há de melhor na música nacional. E se possível escutem, hehe, porque nessas aí vocês não vão encontrar rimas óbvias do tipo Zezé di Camargo & Luciano e derivados do sertanejo incompetente e comercial. São as imortais da rádio AM…
Top 25: Música Sertaneja
01. Um Degrau Na Escada (Chico Rey & Paraná)
02. De Igual Pra Igual (Matogrosso & Mathias)
03. Alma Transparente (Chico Rey & Paraná)
04. Idas e Voltas (Matogrosso & Mathias)
05. Telefone Mudo (Trio Parada Dura)
06. Ainda Ontem Chorei de Saudade (João Mineiro & Marciano)
07. Caminheiro (Milionário & José Rico)
08. Telefone Mais (Chico Rey & Paraná)
09. Boate Azul (Matogrosso & Mathias)
10. Blusa Vermelha (Trio Parada Dura)
11. Meninda da Aldeia (Lourenço & Lourival)
12. Liguei Pra Dizer Que Te Amo (Alan & Aladin)
13. Romaria (João Mineiro & Marciano)
14. Dama de Vermelho (Milionário & José Rico)
15. 24 Horas de Amor (Matogrosso & Mathias)
16. Tranque a Porta e Me Beija (Chico Rey & Paraná)
17. Na Hora do Adeus (Matogrosso & Mathias)
18. Vestido de Seda (Teodoro & Sampaio/Chitãozinho & Chororó)
Existencial. Um termo que define bem qualquer dos cults de Monte Hellman, um diretor que precisa ser redescoberto urgentemente no mundo cinéfilo. Seu filme que despertou a atenção do público foi esse Ride In The Whirlwind, produzido por ele, Nicholson e Roger Corman. Ainda que o roteiro (escrito por Nicholson) não seja tão redondo, é a maneira como o diretor trata da história que faz com que esse seja um dos grandes westerns da década de 1960. Isso faz parte do currículo de Hellman, transformar enredos aparentemente bucólicos em verdadeiras pérolas sobre a condição humana diante de determinadas situações. Eis o que torna seu cinema único, e o “silêncio”com o qual aborda seus temas me faz colocá-lo a altura de gênios como Antonioni. Arrisco-me a dizer que se Antonioni tivesse dirigido um western, certamente sairia algo parecido com o que Hellman fez.
O elenco é todo especial. Cameron e George Mitchell (pequenos mitos do gênero), Mille Perkins (que voltaria a trabalhar com o mesmo diretor dois anos depois), Harry Dean Stanton (numa de suas primeiras aparições) e, claro, Jack Nicholson. Acredito que tenha sido o primeiro papel principal de Nicholson, que foi também o primeiro ator a tirar uma porcentagem do que o filme adquiria nas bilheterias. Contudo o que o tornou um dos maiores de todos os tempos foi essa sua variação entre grandes e pequenas produções, sempre encarando desafios e se lançando no cinema independente. Tudo começou com Roger Corman, depois foi a vez de Hellman, e pra se consagrar caiu nas mãos de outro mestre, Bob Rafelson. Daí para o estrelato foi um pulo, já que talento nunca lhe faltaria.
Apesar desse maravilhoso faroeste, a obra-prima de Hellman no gênero só chegou um pouco depois. The Shooting sintetiza melhor sua arte, exatamente por desenvolver mais coerentemente (coisa que só viria com a experiência, é claro) esse complexo estudo em cima do “silêncio” da vida, elevando ao extremo a visão de que a ela simplesmente tende a continuar imprevisível. Um olhar maduro e melancólico, como poucos já tiveram e foram capazes de traduzir para as telas. Não é “o estilo de Hellman”, mas sim “a metodologia de Hellman”.
E o cinema francês segue surpreendendo nessa década. Cada um em seu espaço, e Olivier Marchal parece ter mergulhado de vez no gênero policial. Primeiro veio o fantástico 36, e seu segundo trabalho demonstra sua incrível evolução por trás das câmeras. Narrativamente nos faz passear por duas histórias que se interligariam mais a frente. Já no começo consegue tirar o fôlego do espectador: Daniel Auteiul, na sua malhor performance (!), nos é apresentado com uma expressão abatida, e seu semblante passa ao espectador uma sensação agoniante (parecida com a que temos ao acompanhar Harvey Keitel em Vício Frenético). Como se soubessemos que na vida desse personagem só existissem desgraças, o o desenrolar da trama provaria isso. Em essência é algo haver com a busca da redenção pelo ser humano.
Talvez o único fator negativo seja a maneira como as coisas se resolvem, tudo muito subitamente. O filme poderia ter se estendido por umas três horas, possibilitando ao objeto em estudo (os pandemônios dos personagens principais) que ele fosse transposto com mais clareza. Pressupõe-se então que o enredo é complexo. Complexo porque as reviravoltas são muitas, mas os dez minutos finais (momento genial, onde os diálogos ficam extintos e só a trilha sonora transita com as imagens) nos jogam de volta ao viés que a história nos havia prendido antes. Quero dizer com isso que às vezes ficamos sem rumo diante de alguns acontecimentos, mas enfim, o desfecho reconstrói essas idéias. A imprevisibilidade do roteiro é algo determinante, algo que denuncia o poder da obra.
Acho que por alguns desses pontos podemos colocar MR 73 na categoria de “cinema [filme] de autor”. Vejo Olivier Marchal como um Michael Mann francês. Em conteúdo, ele evidentemente supera. Claro, Michael Mann ainda não teve em mãos uma trama tão bem fundamentada, e enquanto isso não ocorre, sigamos desfrutando do cinema desse francês de estilo próprio, de estética/técnica brilhante (principalmente no uso das cores e dos movimentos de câmera) e de mão pesada. Porque ele pega na veia, e cria um dos melhores thrillers policiais dos últimos anos.